Salário ou equity: como funciona a remuneração em startup

Como pagar os primeiros membros do time quando falta caixa: o trade-off entre salário e equity, faixas comuns, vesting e um framework para propostas justas.

KL

Kai Lindemann

Fundador e CEO, Foundersbase

· 6 min de leitura

Atualizado em 13 de junho de 2026

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Você não tem como pagar aos primeiros membros do time o que um emprego corporativo paga. O problema mora aí. Um bom engenheiro ganha mais, e com mais estabilidade, numa empresa que já tem receita e um recrutador correndo atrás dele. E você está pedindo que ele aceite menos caixa e mais risco para construir uma coisa que ainda nem existe.

Então você cobre a diferença com participação. O equity é como a startup compra o talento que o saldo bancário não alcança. Bem feito, ele alinha quem está construindo a empresa ao ganho que essas pessoas estão criando. Mal feito, ou não atrai ninguém, ou entrega calado pedaços demais da empresa antes de você entender quanto ela vale.

Este guia é sobre pagar o time, do funcionário 1 ao 10, e não sobre dividir equity entre cofundadores, que é outra conversa, com outra matemática. Aqui a pergunta é mais estreita e mais prática: o que é uma proposta justa e clara quando o caixa está curto?

Caixa e equity são duas metades de um mesmo número

Pense na remuneração total como um valor só, dividido entre duas moedas. O caixa é certo e imediato. O equity é incerto e adiado, mas com um ganho lá em cima bem maior. O seu trabalho é escolher a mistura que o candidato valoriza e que o seu runway aguenta.

Quanto mais cedo está a empresa, mais a mistura pende para o equity, porque é a única moeda da qual você tem bastante. À medida que você capta dinheiro e tira risco do negócio, a balança volta a pender para o caixa. Quem entra no pré-seed troca o máximo de certeza pelo máximo de participação. Quem entra na Série A troca menos de cada lado.

Salário abaixo do mercado é uma dívida que você paga em equity

Quando um candidato aceita 20% abaixo do mercado, ele está te emprestando a diferença. O pacote de opções é como você devolve, com juros, se a empresa vingar. Encarar assim te mantém honesto. Você não está pegando talento barato; está adiando o custo e convertendo ele em participação.

10–30%

desconto típico de salário abaixo do mercado em estágio de seed, devolvido por um pacote maior de equityCarta and Index Ventures compensation benchmarks (rough ranges)

Isso também te avisa quando o equity para de cumprir o papel dele. Se o candidato não consegue bancar o corte no salário, nenhuma quantidade de equity resolve: ele vai embora no instante em que uma proposta mais estável aparecer. Equity motiva quem já consegue pagar o aluguel. Ele não coloca comida na mesa de ninguém.

Pacotes típicos de opções por cargo e estágio

Aqui vem a parte que o fundador quer: números. Encare a tabela abaixo como orientação, não como dogma. As fontes públicas mais citadas, os dados de equity da Carta e os benchmarks de plano de opções da Index Ventures, concordam no formato (mais cedo e mais sênior significa mais), mas variam bastante no número exato, porque cap table, valuation e mercado mudam de caso para caso. São faixas honestas e aproximadas.

ContrataçãoCargoEstágioEquity típico
#1–2Primeiro engenheiro / líder sêniorPré-seed a seed0,5% – 2,0%
#3–5Engenheiro inicial / primeiro líder de GTMSeed0,25% – 1,0%
#6–10Especialista plenoSeed a Série A0,1% – 0,5%
ExecVP / C-level (não fundador)Seed a Série A0,8% – 5,0%
DepoisContratação plenoSérie A0,05% – 0,25%

Duas coisas definem onde um candidato cai dentro dessas faixas: quão cedo ele entra e quão difícil é substituí-lo. O primeiro engenheiro, que constrói o seu produto do zero, fica perto do topo. A décima contratação, que entra depois de uma rodada fechada e do produto no ar, fica mais embaixo, porque corre menos risco. Reserve um pool de opções de uns 10% a 20% da empresa para bancar tudo isso e defina os cargos antes de começar a gastar. Para a sequência de contratação mais ampla, veja o nosso guia sobre como montar um time fundador.

Vesting, cliff e strike price em bom português

Três mecanismos decidem quanto uma concessão realmente vale. Acerte eles uma vez e reaproveite em cada contratação.

  1. Vesting e o cliff

    O padrão é quatro anos com cliff de um ano. Nada veste no primeiro ano; aos doze meses, 25% vestem de uma vez, e o resto vai vestindo mês a mês. Premia quem fica sem prender ninguém.

  2. O strike price

    Cada opção deixa a pessoa comprar uma ação por um preço fixo, o strike, definido pelo valor justo de mercado na data da concessão, via 409A ou equivalente local. Conceda cedo, com o preço baixo, e mais do ganho futuro fica com o funcionário.

  3. A janela de exercício

    A maioria dos planos dá 90 dias para exercer depois da saída. Uma janela pós-desligamento mais longa (algumas startups oferecem até dez anos) é um benefício real, de baixo caixa, que os candidatos perguntam cada vez mais.

É por isso que o momento importa mais do que a porcentagem do título. O mesmo 1% concedido com strike baixo antes de uma rodada precificada pode valer muito mais do que 1% concedido depois. Quem entra cedo está pagando pelo risco com a própria carreira, e o strike baixo faz parte do que essa pessoa recebe em troca.

Como fazer uma proposta em que o candidato consegue confiar

As melhores propostas são claras. Um candidato que não consegue calcular o que está recebendo vai descontar isso quase a zero, e com razão, porque equity opaco já queimou muita gente. Transparência aqui não é generosidade; é o que faz o equity valer alguma coisa para ele.

Se o candidato precisa de uma planilha que você não vai compartilhar para avaliar a sua proposta, você não fez uma proposta. Fez uma charada.

Dê os números que permitem fazer a conta: quantas opções, o strike price, o total de ações em circulação (para uma porcentagem significar algo), o último preço da preferencial e os termos de vesting. Diga quanto a concessão valeria num exit realista e quanto valeria a zero. Candidato respeita fundador que tem coragem de nomear o lado ruim.

Sobre os cargos, seja explícito sobre o que a pessoa responde e como a função cresce conforme você capta, porque quem entra cedo está comprando uma trajetória, não só um título. E coloque tudo no papel. Uma promessa de equity numa mensagem de chat não é uma concessão; o conselho precisa aprovar as opções e a papelada precisa existir. Quando você publica uma vaga nas vagas de startup da Foundersbase, os candidatos que se inscrevem por conta própria já entendem a troca. A sua proposta só precisa ser honesta o bastante para manter a confiança deles.

O checklist da proposta

Antes de mandar a próxima proposta, passe ela por cinco perguntas:

  1. A pessoa consegue bancar o caixa? Se não, ajuste primeiro o salário — equity não paga aluguel.
  2. O equity combina com o risco? Mais cedo e mais difícil de substituir significa mais. Use a tabela para conferir, não como roteiro fechado.
  3. A concessão é clara? Número de opções, strike, ações em circulação e um exemplo resolvido, tudo por escrito.
  4. O vesting é o padrão? Quatro anos, cliff de um ano, com a janela de exercício dita de cara.
  5. Você aceitaria? Se você não largaria um emprego estável por essa proposta, não espere que outra pessoa largue.

Pague as pessoas de forma justa pelo risco que correm, mostre a conta e coloque no papel. O framework é esse, inteiro. Os times que acertam a remuneração não são os que têm mais caixa: são aqueles que fazem uma proposta em que um candidato esperto e desconfiado consegue confiar já na primeira leitura.

Perguntas frequentes

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Kai LindemannFundador e CEO, Foundersbase

Kai é o fundador da Foundersbase, a rede onde os fundadores encontram cofundadores, os primeiros colegas de equipa e os seus primeiros apoiantes. Escreve sobre co-founder matching, construção de equipas em fase inicial e a mecânica pouco glamorosa de lançar uma startup.

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